Estudo divulgado pelo Instituto das Nações Unidas detalha a simbiose operacional entre cartéis, facções brasileiras como PCC e Comando Vermelho, e redes terroristas globais como o Hezbollah.
O Instituto de Pesquisa das Nações Unidas sobre Crime e Justiça (UNICRI) publicou o relatório oficial intitulado "The Nexus between Transnational Organized Crime and Terrorism in Latin America".
O documento foi escrito por Christian Vianna de Azevedo, agente da Polícia Federal do Brasil e pesquisador sênior do UNICRI, sob a orientação e edição geral de Chiara Bologna.
A pesquisa examina de forma aprofundada como redes criminosas transnacionais e organizações terroristas vêm expandindo suas alianças, canais de financiamento ilícito e capacidades operacionais na região ao longo das últimas três décadas.
A convergência entre crime e terror na dinâmica regional
O relatório aponta que o cenário de segurança na América Latina transformou-se profundamente, com grupos terroristas e organizações criminosas adotando estruturas híbridas cada vez mais sofisticadas.
Enquanto o terrorismo busca fontes alternativas de financiamento por meio de atividades altamente lucrativas — a exemplo do narcotráfico, do contrabando e da lavagem de dinheiro —, facções criminosas adotam táticas de coerção extrema e terror para expandir seus domínios territoriais e chantagear o Estado.
O estudo categoriza essas interações em níveis transacionais (alianças de curto prazo e apropriação mútua de táticas) e organizacionais (integração, formas híbridas e a transformação estrutural de grupos), destacando que o ciclo de atividade terrorista engloba etapas complexas que vão muito além do ataque em si, abrangendo recrutamento, logística e financiamento.
A atuação do Hezbollah e redes financeiras na Tríplice Fronteira
Entre os casos analisados, o documento detalha a presença do Hezbollah na América Latina, com forte incidência na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai) e conexões estreitas com o narcotráfico e esquemas complexos de lavagem de dinheiro.
Figuras como: Farouk Abdel Omairi e Assad Ahmad Barakat, são apontadas como operadores financeiros e logísticos cruciais para a organização, utilizando comércios locais, cassinos fronteiriços e redes de documentos falsificados para remeter fundos ilícitos ao Oriente Médio.
O relatório também destaca operações internacionais de grande envergadura, como a "Operação Titã", que desmantelou rotas de cocaína ligando cartéis colombianos a portos na Jordânia e canais de financiamento no Líbano, além de conexões envolvendo facilitadores na Venezuela e redes de apoio logístico.
O impacto das facções brasileiras e a apropriação de táticas de guerrilha
O estudo dedica atenção especial às maiores organizações criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
- Primeiro Comando da Capital (PCC): Nascido nos presídios paulistas em 1993, o PCC expandiu suas operações para quatro continentes e consolidou o narcotráfico transnacional. O relatório aponta que o grupo assimilou conceitos de guerra assimétrica e guerrilha urbana após o contato de seu principal líder (Marcola) com o guerrilheiro chileno Mauricio Hernández Norambuena (do grupo FPMR) no sistema prisional brasileiro em 2002. Isso resultou em tentativas de atentados com explosivos contra edifícios estratégicos e em ondas coordenadas de violência contra o Estado, a exemplo dos ataques de 2006;
- Comando Vermelho (CV): Originado nos presídios do Rio de Janeiro em 1979 a partir da convivência entre criminosos comuns e guerrilheiros de esquerda, o CV é mapeado por suas alianças históricas com as FARC na Amazônia para a troca de armas por toneladas de cocaína, além de manter rigoroso controle territorial em favelas cariocas com o uso de armamento pesado de padrão militar.
Contrabando de migrantes e riscos à segurança hemisférica
Outro eixo crítico abordado no relatório é o contrabando transcontinental de migrantes, explorado por redes criminosas que facilitam o tráfego ilegal de indivíduos procedentes da África, do Oriente Médio e da Ásia em direção à América do Norte.
A "Operação Big Five" da Polícia Federal do Brasil exemplifica como redes baseadas em São Paulo falsificavam passaportes e vistos para introduzir migrantes no continente.
A investigação detectou que essas redes chegaram a facilitar o trânsito de indivíduos suspeitos de ligações com grupos terroristas, como o Al-Shabaab, que tentavam cruzar rotas terrestres de alto risco, a exemplo da região de Darién, entre a Colômbia e o Panamá.

