Por Wagner Coelho
Por Wagner CoelhoA proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro foi formalmente rejeitada pela Polícia Federal (PF) na tarde desta quarta-feira, 20 de maio de 2026. A decisão foi comunicada oficialmente à equipe jurídica do ex-controlador do Banco Master durante uma reunião realizada em Brasília. O encerramento das tratativas foi imediatamente informado ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), e repercutiu intensamente nos bastidores políticos da capital federal.
O que motivou o sepultamento do acordo?
A recusa do acordo de delação premiada de Daniel Vorcaro foi fundamentada na avaliação de que os anexos apresentados pela defesa eram superficiais e "vazios". De acordo com fontes ligadas à Operação Compliance Zero, as informações trazidas pelo ex-banqueiro não eram inéditas e limitavam-se a fatos que já haviam sido descobertos pelos investigadores federais.
Além disso, foi identificado por inspetores que o colaborador agiu de forma seletiva. Na leitura da corporação, dados cruciais foram omitidos com o claro objetivo de preservar figuras poderosas da República, incluindo senadores e autoridades do alto escalão do mercado financeiro. Um dos episódios que gerou forte insatisfação envolveu a suspeita de repasse de vantagens indevidas a parlamentares, fato que não foi detalhado pelo banqueiro em seus depoimentos iniciais.
A falta de robustez nas provas materiais apresentadas para confirmar os relatos também pesou decisivamente para que a delação premiada de Daniel Vorcaro fosse considerada inútil para o avanço das apurações criminais.
Como foi conduzido o isolamento do investigado?
O descontentamento com a postura da defesa já vinha sendo sinalizado desde o início da semana. Na segunda-feira, 18 de maio, por determinação judicial, o ex-banqueiro foi transferido de uma Sala de Estado-Maior — onde usufruía de confortos como ar-condicionado e frigobar — para uma cela comum na Superintendência Regional da PF no Distrito Federal. O acesso livre de seus advogados a qualquer hora do dia também foi suspenso, endurecendo o regime de custódia.
O canal de diálogo com o STF foi completamente rompido após o vazamento de trechos sigilosos da proposta de colaboração. Diante do descumprimento do sigilo legal, o ministro André Mendonça cortou as interlocuções diretas com a banca de advogados do réu. Com o fim das negociações com a PF, o destino processual do empresário retorna para a análise do magistrado no Supremo, e a probabilidade de uma transferência para um presídio convencional do sistema penitenciário, como o Complexo da Papuda, é considerada iminente pelas autoridades locais.
O impacto da fraude financeira e as prisões recentes
O império financeiro de Daniel Vorcaro desmoronou em 18 de novembro, quando a liquidação extrajudicial do Banco Master S/A e de suas subsidiárias foi determinada pelo Banco Central, após a constatação de fraudes e de uma grave crise de liquidez. O rombo decorrente dos desvios em regimes próprios de previdência social e fundos de pensão é estimado em ao menos R$ 12 bilhões, embora o montante global sob apuração possa alcançar cifras muito maiores. Atualmente, o valor total a ser pago em garantias pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) soma R$ 40,6 bilhões.
O cerco familiar e jurídico contra o clã Vorcaro foi ampliado na semana passada com a prisão preventiva de Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro, capturado no âmbito da Operação Compliance Zero. Evidências colhidas pela corporação apontam que o esquema criminoso continuou operando ativamente mesmo após a prisão do filho, ocorrida em 4 de março de 2026. Henrique também é investigado por suposto envolvimento no financiamento de um grupo de milícia privada, que teria sido contratado para coagir e atacar adversários comerciais do grupo financeiro.
Quais são os próximos passos jurídicos do caso?
Embora as negociações tenham sido sepultadas no âmbito da Polícia Federal, o processo não está totalmente encerrado no Judiciário. Pela legislação penal brasileira, vigora uma autonomia paralela entre as instituições. Isso significa que a Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda mantém, de forma independente, mesas de negociação abertas com a defesa do banqueiro.
Se uma nova proposta revisada, contendo provas cabais e revelações inéditas, for aceita pelos procuradores da PGR, o termo de cooperação poderá ser assinado e enviado para a homologação do STF. Contudo, caso o órgão ministerial decida acompanhar o entendimento da PF e rejeitar os termos, a possibilidade de concessão de benefícios penais será definitivamente extinta, forçando o réu a enfrentar a ação penal convencional desprovido de qualquer redução de pena.