Investigação sobre desvios no programa "Wi-Fi Livre SP" mira financiamento do filme "Dark Horse" e gera forte reação de Ricardo Nunes
A Operação Wi-Fi foi classificada pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, como um ato de perseguição política e um flagrante desrespeito à democracia. A declaração foi dada em entrevista coletiva na última semana, após a Polícia Civil de São Paulo deflagrar uma ação que investiga o suposto desvio de R$ 26 milhões de contratos da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT). De acordo com os investigadores, o montante teria sido utilizado para financiar o filme "Dark Horse", que retrata a trajetória política e o atentado sofrido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018.
O esquema sob investigação e os alvos da polícia
O inquérito foi instaurado pela Polícia Civil para apurar fraudes na execução do programa "Wi-Fi Livre SP", voltado à instalação de internet gratuita na periferia da capital paulista. O foco das buscas, que incluíram a sede da secretaria municipal, é o contrato firmado entre a prefeitura e a organização não governamental Instituto Conhecer Brasil (ICB).
A entidade recebeu R$ 108 milhões da administração pública, valor que atingiu R$ 157,1 milhões após aditivos contratuais. A presidente da ONG, Karina Ferreira da Gama, é também proprietária da Go UP Entertainment, produtora responsável pelo longa-metragem sobre o ex-presidente. Suspeita-se que uma rede de empresas de fachada e notas fiscais frias tenha sido operada para realizar a triangulação dos recursos públicos.
Argumentos da defesa e incompatibilidade temporal
A tese de perseguição política foi sustentada pelo prefeito Ricardo Nunes com base no cronograma dos fatos administrativos. Segundo o chefe do Executivo municipal, o processo de contratação do ICB foi devidamente consolidado em junho de 2024. Em contrapartida, a comunicação oficial enviada à Spcine sobre o início das gravações de "Dark Horse" ocorreu apenas em outubro de 2025.
Foi argumentado pelo prefeito que a distância temporal entre os dois eventos anula qualquer nexo de causalidade que ligue a verba do programa de internet ao financiamento da produção cinematográfica. Nunes declarou ainda que a fiscalização da prefeitura restringe-se à entrega efetiva do sinal de internet nas comunidades e que o lucro obtido de forma lícita pelas contratadas pode ser gerido de forma autônoma pelas empresas, sem interferência estatal. A integridade de Karina Gama foi defendida pelo prefeito, que afirmou tê-la conhecido casualmente durante a feira Expo Cristã.
Fragilidades técnicas e o cenário político
Irregularidades graves foram apontadas pelos auditores na prestação de contas apresentada pela ONG à SMIT. Foi identificada a emissão de dezenas de notas fiscais que acabaram canceladas no mesmo dia, embora tivessem sido anexadas aos relatórios de execução financeira enviados ao município.
O caso ganha contornos complexos no cenário de segurança pública, uma vez que a Polícia Civil é subordinada ao governo estadual de Tarcísio de Freitas, aliado político de Nunes e também do campo bolsonarista. Pela prefeitura, foi garantido que todos os dados e arquivos digitais solicitados foram integralmente fornecidos aos agentes durante as buscas, mantendo o compromisso com a transparência do processo.