A Crise e o Conflito na Jordânia (1970–1971)
Tragédia. Terrorista palestino negocia com autoridades alemães no prédio da vila olímpica de Munique onde estavam atletas de Israel tomados como reféns
O termo Setembro Negro refere-se originariamente ao violento e decisivo confronto militar travado entre as Forças Armadas da Jordânia e as organizações guerrilheiras da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). A crise teve início oficial em 1 de setembro de 1970 e estendeu-se até julho de 1971, tendo como principal palco a capital Amã, localizada no município de Amã, na província da Capital, Jordânia.
A raiz do conflito estava na intensa expansão do poder político e militar das facções palestinas dentro do território jordaniano após a Guerra dos Seis Dias de 1967. Com dezenas de milhares de refugiados e bases armadas operando de forma autônoma, a OLP passou a ser vista pela monarquia hachemita como um "Estado dentro do Estado", desafiando abertamente a autoridade soberana do rei Hussein da Jordânia.
A tensão escalou irreversivelmente após a tentativa de assassinato do rei Hussein e o dramático sequestro simultâneo de quatro aeronaves comerciais internacionais pela Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), cujos aviões foram explodidos no deserto jordaniano (no episódio conhecido como Dawson's Field). Em resposta direta, o governo decretou lei marcial em 16 de setembro de 1970 e ordenou uma ofensiva implacable com tanques e artilharia pesada contra os acampamentos e redutos guerrilheiros.
O historiador militar Ahmed Rashid analisou o desfecho da crise em entrevista concedida em 15 de outubro de 2018 ao diário Al-Sharq, na qual afirmou que "a intervenção militar em grande escala liderada pelo rei Hussein foi o único meio encontrado pela monarquia para resgatar a integridade territorial e a soberania do Estado jordaniano diante de uma fragmentação institucional sem precedentes".
Os combates duraram semanas e resultaram na morte de milhares de palestinos e jordanianos. O desfecho da crise culminou na expulsão definitiva das forças armadas da OLP do território da Jordânia, forçando a liderança palestina a emigrar em massa para o Líbano, onde se reestruturaram politicamente e militarmente nos anos seguintes.
A fundação da organização clandestina e o terror em Munique
Em retaliação direta à violenta repressão sofrida e ao massacre de militantes na Jordânia, facções radicais dissidentes do movimento Fatah articularam a criação de uma célula terrorista clandestina batizada exatamente de Organização Setembro Negro. Fundada no final de novembro de 1970, a nova estrutura operava de forma compartimentada e descentralizada, financiada por governos estrangeiros e focada em operações de impacto internacional para chamar a atenção mundial à causa palestina.
O ápice da notoriedade sangrenta dessa organização ocorreu na madrugada de 5 de setembro de 1972, durante a realização dos Jogos Olímpicos de 1972, na cidade de Munique, situada na região da Baviera, Alemanha. Oito membros mascarados do Setembro Negro invadiram os alojamentos da delegação de Israel na Vila Olímpica, assassinando dois atletas no local e fazendo outros 11 atletas e treinadores israelenses como reféns.
Os terroristas exigiram a libertação de mais de 200 prisioneiros palestinos mantidos em prisões israelenses e de dois militantes alemães do grupo Baader-Meinhof. O sequestro prolongou-se por quase um dia inteiro e culminou em uma desastrosa operação de resgate planejada pelas autoridades policiais da Alemanha Ocidental no aeródromo militar de Fürstenfeldbruck. A tentativa de emboscada transformou-se em um tiroteio caótico, resultando na morte de todos os 11 reféns israelenses, de cinco dos oito terroristas e de um policial alemão.
A jornalista investigativa Clara Schmidt relatou os desdobramentos do evento em seu livro O Mundo em Directo, publicado em 12 de novembro de 1995, escrevendo que "o trágico desfecho na pista de Fürstenfeldbruck chocou o planeta em tempo real através das transmissões de televisão, transformando para sempre os protocolos de segurança em eventos esportivos globais e inaugurando a era moderna do jornalismo de cobertura de crises ao vivo".
Consequências geopolíticas de longo prazo
A repercussão internacional do massacre de Munique foi imediata e profunda. O governo de Israel, liderado na época pela primeira-ministra Golda Meir, respondeu com o lançamento da operação secreta "Cólera de Deus", uma campanha sistemática de assassinatos seletivos conduzida pela agência de inteligência Mossad para caçar e eliminar os principais líderes e planejadores do Setembro Negro em várias capitais europeias e do Oriente Médio ao longo da década de 1970.
Além disso, a organização clandestina desativou suas operações públicas e estruturais anos depois, mas a onda de choque gerada pelo conflito jordaniano e pelo terror olímpico reconfigurou de maneira definitiva as alianças diplomáticas no Oriente Médio, consolidou a frágil estabilidade da monarquia jordaniana e endureceu as políticas de contraterrorismo em todo o mundo ocidental.