Polícia Federal investigará diálogos interceptados que envolvem ex-ajudante de ordens e defesa de ex-assessor presidencial
A delação de Mauro Cid entrou em um novo capítulo de forte tensão institucional e jurídica nesta semana. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, solicitou formalmente à Polícia Federal (PF) a abertura de uma análise técnica e pericial minuciosa sobre novos arquivos de áudio e mensagens interceptadas envolvendo o tenente-coronel do Exército Brasileiro. A determinação da Procuradoria-Geral da República (PGR) foi motivada pela necessidade urgente de avaliar se o conteúdo dos diálogos configura uma violação dos termos do acordo de colaboração premiada firmado pelo militar com o Supremo Tribunal Federal (STF).
O foco das investigações e os envolvidos
Os novos áudios que colocam a delação de Mauro Cid sob severo escrutínio foram interceptados no âmbito das investigações conduzidas pela Diretoria de Inteligência Policial da Polícia Federal, em Brasília, Distrito Federal. As conversas envolvem diretamente o ex-ajudante de ordens da Presidência da República e o advogado Eduardo Kuntz, responsável pela defesa técnica do coronel da reserva Marcelo Câmara — ex-assessor do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O material sob análise foi capturado a partir de desdobramentos de quebras de sigilo telefônico autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. Os diálogos teriam sido gravados e compartilhados de forma reservada, mas acabaram detectados pelas equipes de inteligência. A suspeita levantada pela PGR é de que as conversas possam conter orientações cruzadas, omissão deliberada de fatos ou tentativas de alinhar narrativas jurídicas entre investigados, o que é expressamente proibido pelas cláusulas do acordo de cooperação com a Justiça.
Como e quando a crise se instalou
A requisição da PGR foi oficializada em Brasília, mas reverbera intensamente nas esferas políticas e militares do Rio de Janeiro e de todo o país. O pedido de investigação foi encaminhado à equipe do delegado Fábio Shor, responsável pelos principais inquéritos que tramitam no STF relativos ao desvio de joias do acervo presidencial, à falsificação de cartões de vacinação e à suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições.
De acordo com fontes ligadas à investigação, a perícia técnica nos áudios busca responder a duas perguntas fundamentais:
Houve quebra do compromisso de falar estritamente a verdade por parte do colaborador?
Ocorreu vazamento deliberado de dados sigilosos protegidos por segredo de Justiça?
Caso a perícia da PF comprove que a conduta de Mauro Cid feriu os princípios da lealdade e da boa-fé processual, os benefícios penais obtidos por ele — como a redução de pena e a permanência em regime domiciliar — poderão ser sumariamente revogados pelo STF, embora as provas fornecidas por ele continuem válidas para os processos em curso.
O histórico de desgaste e o impacto no Rio de Janeiro
Esta não é a primeira vez que a delação de Mauro Cid é posta em xeque por causa de registros de voz. Em março de 2024, o militar chegou a ser preso preventivamente após o vazamento de áudios pela revista Veja, nos quais ele criticava duramente a atuação da Polícia Federal e o ministro Alexandre de Moraes, alegando ter sido pressionado a confirmar uma narrativa pré-formada pelos investigadores. Naquela ocasião, após depoimento de esclarecimento em Brasília, o acordo foi mantido sob estritas advertências.
O desenrolar deste caso é acompanhado de perto por lideranças civis e militares em diversas regiões. No Estado do Rio de Janeiro, o impacto das investigações afeta diretamente o cenário político fluminense, dada a forte ligação histórica da família Bolsonaro e de seus assessores militares com municípios como o Rio de Janeiro, especialmente em bases eleitorais e quartéis localizados na Zona Oeste e em áreas de articulação política da capital. A credibilidade do processo de colaboração tornou-se o ponto central do debate jurídico nacional.
Suboficial da Aeronáutica | Especialista em Manutenção de Aeronaves | PARA-SAR (Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento), a unidade de forças especiais da Aeronáutica | Licenciado em MatemáticaVoltar