Facções criminosas tinham ordens transmitidas por defensores jurídicos em presídios baianos; ações ocorreram em seis municípios
Uma rede estruturada de comunicação ilícita foi desarticulada no estado da Bahia durante a deflagração da Operação Sintonia de Gravata, coordenada pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA). A ação policial foi deflagrada na última sexta-feira, dia 3 de julho de 2026, por intermédio do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco). Foram cumpridos mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão contra advogados presos na Bahia, os quais são acusados de utilizar prerrogativas constitucionais da advocacia para transmitir ordens de lideranças de facções criminosas custodiadas em unidades prisionais de segurança máxima.
O monitoramento da organização criminosa foi realizado ao longo de meses pelas forças de segurança pública após um atentado a tiros ter sido perpetrado contra o diretor do Conjunto Penal de Jequié, localizado na região sul do estado. As investigações apontam que ordens de execuções, contabilidade do tráfico de entorpecentes e aquisição de armamentos de grosso calibre eram intermediadas pelos profissionais jurídicos em municípios baianos como Salvador, Feira de Santana, Lauro de Freitas, Camaçari, Serrinha e Barreiras. O reflexo das ações interagências repercute nas diretrizes de monitoramento prisional em todo o território nacional, incluindo as secretarias de segurança pública de estados como o Rio de Janeiro.
O esquema de transmissão de ordens nos parlatórios
O monitoramento audiovisual foi autorizado pela Vara de Jurisdição Plena da Comarca de Eunápolis, permitindo que os diálogos mantidos nos parlatórios fossem integralmente registrados. Pelas investigações do Gaeco, em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) e a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap), foi constatado que as barreiras de isolamento impostas aos líderes dos grupos criminosos Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Bonde do Maluco (BDM) eram burladas pelos defensores.
As ordens para a movimentação financeira e planejamento de homicídios eram repassadas de forma verbal e por meio de bilhetes manuscritos levados para o ambiente externo das penitenciárias. A gravidade dos fatos motivou a expedição de mais de 20 mandados de prisão preventiva. A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA) foi notificada para que o cumprimento dos mandados fosse acompanhado por representantes da comissão de prerrogativas, visando garantir a legalidade dos procedimentos de busca nos escritórios e residências dos investigados.
Logística e ramificações das facções nos municípios
A operação concentrou grande parte dos mandados no Presídio de Segurança Máxima de Serrinha, de onde partiam as principais diretrizes logísticas das facções. No entanto, os desdobramentos operacionais atingiram bairros periféricos e centros urbanos das principais cidades baianas. Em Feira de Santana e Salvador, documentos e dispositivos eletrônicos foram apreendidos pelas equipes da Polícia Civil, os quais passarão por perícia técnica para identificar a extensão do branqueamento de capitais promovido pela rede de advogados presos na Bahia.
A conexão entre a comunicação intramuros e o aumento dos índices de letalidade violenta nas ruas da Bahia é apontada pelos promotores de Justiça como o principal fator para a urgência da intervenção. O fluxo de informações gerido pelos profissionais do direito garantia a manutenção do poder econômico e bélico das quadrilhas, que mesmo com suas lideranças principais isoladas em regime fechado, mantinham o controle operacional do mercado ilícito de drogas e armas.
Impactos institucionais e o cenário nacional
A reiteração de fraudes no exercício da advocacia voltada ao crime organizado acende alertas em âmbito nacional sobre a necessidade de endurecimento na fiscalização de visitas jurídicas. Portais especializados em geopolítica e defesa destacam que a infiltração de facções em estruturas institucionais é uma tática recorrente para desestabilizar as políticas de contenção do Estado. No Rio de Janeiro, o monitoramento de conexões entre criminosos locais e facções atuantes no Nordeste é constantemente atualizado pelas polícias Civil e Militar, visto que o Comando Vermelho e o TCP possuem bases consolidadas em bairros de municípios fluminenses.
As investigações da Operação Sintonia de Gravata seguem em sigilo parcial para que novas fases sejam desencadeadas, visando capturar os destinatários finais das ordens que permanecem foragidos. Os advogados detidos foram encaminhados para unidades prisionais com salas de Estado-Maior, conforme previsto no Estatuto da Advocacia, onde permanecerão à disposição do Poder Judiciário baiano para responderem pelos crimes de organização criminosa e associação para o tráfico.